O Flamengo voltou da Argentina com um empate diante do Estudiantes, pela Libertadores, e reconheço que o resultado tem seu valor. Jogar fora de casa em uma competição desse tamanho nunca é simples, especialmente contra uma equipe acostumada a disputar cada espaço do campo. Mas confesso que terminei a partida com uma sensação de insatisfação. Não pelo placar, e sim pelo futebol apresentado. Há algum tempo venho observando um Flamengo cada vez mais preocupado em cumprir rigorosamente suas funções táticas, como se a organização coletiva tivesse se tornado mais importante do que a capacidade de criação dos próprios jogadores. E isso me incomoda porque considero o nosso elenco tecnicamente superior ao da maioria dos adversários que enfrentamos na América do Sul. Temos qualidade para controlar a bola, construir jogadas e encontrar soluções diferentes, mas frequentemente vejo uma equipe que parece abrir mão dessa vantagem para disputar partidas excessivamente físicas, previsíveis e amarradas.
Não estou dizendo que o Flamengo seja um time desorganizado. Muito pelo contrário. Reconheço a consistência defensiva, a capacidade de pressionar a saída de bola adversária e a eficiência nas transições rápidas. Quando recuperamos a posse no campo de ataque, conseguimos explorar uma defesa desarrumada e criar situações perigosas. Tudo isso faz parte do futebol moderno e precisa ser valorizado. O problema, na minha avaliação, começa quando essa passa a ser praticamente a única maneira de atacar. Se temos jogadores com capacidade para dominar a posse, trocar passes e desmontar linhas defensivas pela habilidade, por que precisamos depender tanto de movimentos previsíveis? Contra o Estudiantes, tive a impressão de que aceitamos jogar dentro das condições que o adversário mais gosta. Os argentinos fizeram o que podiam com os recursos que possuem, enquanto nós deixamos de utilizar boa parte da superioridade técnica que considero existir entre as duas equipes.
Senti falta de ver Carrascal tentando uma jogada individual, Samuel Lino encarando a marcação e Paquetá se aproximando dos companheiros para criar tabelas e encontrar espaços. Não espero que todos os dribles funcionem ou que cada tentativa de improviso termine em gol. Sei perfeitamente que o futebol envolve erros e que perder uma bola tentando algo diferente também oferece riscos. Mas acredito que jogadores desse nível precisam ter liberdade para assumir esses riscos, principalmente quando enfrentam adversários que se defendem com muitos homens. Uma equipe organizada consegue estudar movimentações ensaiadas, fechar linhas de passe e antecipar determinados comportamentos. O que ela não consegue prever com a mesma facilidade é uma arrancada inesperada, uma tabela construída pela aproximação espontânea de dois jogadores ou um passe que ninguém imaginava. Para mim, essa imprevisibilidade sempre foi uma das maiores riquezas do futebol brasileiro, e sinto que estamos deixando essa característica escapar.
Vejo esse fenômeno também em outras grandes equipes do país, especialmente no Palmeiras, que há bastante tempo convive com discussões semelhantes sobre o peso da organização tática. Tenho a impressão de que o futebol brasileiro abraçou determinados conceitos europeus com tanto entusiasmo que, em alguns momentos, passou a tratar a criatividade quase como uma ameaça ao sistema. Não sou contrário à evolução tática, à intensidade física ou à disciplina defensiva. Seria absurdo ignorar a importância de tudo isso no futebol atual. O que questiono é a necessidade de transformar jogadores talentosos em executores de movimentos cada vez mais rígidos. Quando penso nos grandes momentos recentes do Flamengo, lembro de uma equipe capaz de combinar organização com liberdade ofensiva. Havia sempre aquela expectativa de que, ao chegar ao campo adversário, alguém pudesse inventar uma solução, criar uma jogada improvável e decidir uma partida pela qualidade individual. Hoje continuo vendo um time competitivo, mas nem sempre encontro aquela espontaneidade que tornava nosso ataque tão difícil de marcar.
Também entendo que existe uma explicação física para parte dessa mudança. O calendário brasileiro é desgastante, as viagens são frequentes e os jogadores precisam disputar partidas decisivas em intervalos muito curtos. É natural que os treinadores procurem controlar melhor os espaços e reduzir a exposição defensiva. Ainda assim, acredito que é possível preservar a segurança sem sacrificar tanto a capacidade ofensiva. Não quero um Flamengo irresponsável, atacando de qualquer maneira e deixando espaços enormes para os contra-ataques. Quero um time que saiba reconhecer quando pode acelerar, quando precisa administrar a posse e, principalmente, quando deve permitir que seus melhores jogadores decidam a jogada com liberdade. Contra adversários de qualidade semelhante, compreendo a necessidade de cuidados maiores. Mas, quando vejo uma diferença técnica significativa entre os elencos, espero que essa superioridade apareça também na maneira de jogar, e não apenas nos nomes que entram em campo.
Continuo confiante na classificação do Flamengo, mas não acredito que o confronto no Maracanã será resolvido simplesmente pela força da torcida ou pela superioridade individual do nosso elenco. O Estudiantes sabe se defender, consegue tornar as partidas desconfortáveis e certamente tentará repetir uma estratégia de muita marcação, poucas concessões e exploração dos nossos erros. Por isso, considero fundamental que o Flamengo entre em campo disposto a fazer mais do que cumprir um roteiro tático. Precisamos de movimentação, aproximação, coragem para driblar e inteligência para encontrar espaços. Também precisamos estar preparados para uma eventual disputa por pênaltis, caso a partida siga sem definição. O empate na Argentina não foi um desastre, longe disso, mas espero muito mais da nossa próxima apresentação. Quero ver um Flamengo organizado, sim, porém criativo, ousado e consciente da qualidade que possui. Porque, na minha opinião, quando a disciplina começa a sufocar o talento, deixamos de aproveitar justamente aquilo que poderia nos tornar superiores. E um elenco como o do Flamengo não pode se contentar apenas em competir. Precisa jogar futebol à altura dos jogadores que tem.


Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a participar!